segunda-feira, 5 de setembro de 2011

cicatrizes expostas

Sentado, à beira da janela, com uma caneca de café morno, sob um céu de poucas estrelas, tento regenerar as marcas das antigas punições. É, todas aquelas dores psíquicas, psicanalíticas, da psique ou sei lá com eu as intitulei, estão passando. Estão passando e isso está deixando-me mais leve. Os ruídos noturnos estão pairando em outros lugares. Deixaram-me e agora posso debruçar-me sobre o papel sem que a minha consciência implore por um sentimento não vivido; por uma discussão não resolvida; por um discurso não feito. Estou livre daquelas sensações de ansiedade, de autorrejeição, de visceralidade profunda. Encontrei-me depois de estar muito perdido sobre becos escuros; alagadiços; imundos. Era tudo coisa da minha cabeça, eu sei – mas sei só agora. E como foi difícil compreender. Como foi difícil aceitar. Como foi difícil. Hoje, minhas dores são matematicamente calculadas, minhas lágrimas limitaram-se aos encontros fúnebres e, depois de curadas as cicatrizes, o que me sobrou foi um racionalismo agudo, cheio de incertezas, mais cético do que outrora, menos crente do que quando ia à missa, com mamãe, em manhãs tão nubladas quanto os novos sentimentos que açoitam à minha mente.

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