sábado, 14 de janeiro de 2012

pó, tudo vira.

"It’s hard to dance with a devil on your back".

Vovó morria e eu relutava. Nada mais fazia sentido: um sonho morreu; uma vida se foi. O sonho passou, sutilmente pelas minhas mãos e, o grande problema: não o senti fugindo do meu alcance. Voou. Foi-se. Nada mais poderá ser feito. Não era consistente, o vento levou. Se houvessem raízes... Se houvessem. A previsão de volta é indeterminada. Bi, tri, quatrilhões de anos luz: lá estará mais uma alma esburacada. You are the hole in my head. “Seja buraco não, senhô”. Flua na mente, na alma, no corpo, nas veias, no sangue coagulado. Não fluiu, morreu. Se houvessem folhas, teriam caído. Faltou água; faltou regularidade. Uma dica: regue, regue, regue, caso contrário, não vive; morre facim facim. Esquecer é difícil. Se fosse sentimento, não seria nada. Não tenho mais dessas coisas [mentira, tá tudo fudido, amassado e, quando explodir... Não desejarei mais ser]. Mas vovó continua sem perspectiva. Acho que ela nem sabe mais o significado disso. Ela só quer ser abraçada, sabe? E quando eu a abraço sinto os seus ossos, pedindo por descanso. Logo sinto o desgaste. Tudo ali é vivido; tudo ali tem um sentido. Supomos as suas rugas: madrugadas, iluminadas a vela, sobre uma máquina. Essa máquina era mágica: levava a comida para a mesa; levava os filhos para a escola; a dor para as costas. Magia, minha gente. Magia tem dessas coisas. Felicidade até um ponto, depois tem os impostos. Uns pagam menos, outros mais. Só que há casos em que essa relação ultrapassa a monetaridade: o valor é corpo sofrido, é a mente desgastada. Vovó está rala, trinta e poucos quilos, sessenta anos de cigarettes, cinqüenta e poucos de um casamento fudido e setenta e três de lucidez. Nesses momentos eu peço que a sua mente durma e o seu corpo descanse. Nada mais é válido. Deus deve estar no céu, olhando ela sofrer; ela e mais meio mundo. Deus MA-RA-VI-LHO-SO. Cadê? non ecsiste.

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