quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

no lo se

No sonho ela pedia um copo de água. Seus lábios estavam ressecados, sua face era pálida e não lhe restavam forças para um abraço apertado, para um adeus; não haviam forças para um aperto de mão. Seus cabelos eram delgados de tão finos. Ela queria água e um pouco de ar para respirar. Dar as últimas tragadas de oxigênio não é nada fácil, absolutamente. O mais difícil é tomar consciência de que os últimos golpes de ar lhe chegaram. “Amor, estou partindo”. Foram essas as palavras. Tão claras, foram essas as palavras que me fizeram acordar. Corri para o telefone. Eu queria apenas um sussurro dela dizendo um oi. “Alô, alô, tem alguém ai?”. Após essas palavras, desliguem o telefone - as lágrimas foram instantâneas. Os nossos laços estavam quebrados há algum tempo e as minhas forças para reatá-los eram tão pequenas quanto as forças dela, no sonho. Vieram-me a mente o dia em que perdi os afagos, os mimos, os carinhos vindos dela. As palavra ditas a mim, naquele dia, estavam pairando na minha mente. Se bem que pairar é muito leve; aquelas palavras foram mais duras, foram mais dolorosas. O que acontece na hora da lembrança é um nó no estômago e vômito. Nada para mais. Tudo volta e se vai com a descarga do sanitário- que, aliás, está imundo. O problema é a efemeridade dessas dores abdominais. Minha mente anda dando muito valor a coisas efêmeras. Não, não, isso não faz bem. Tanto que já me afastei dela por isso. Dei muito valor para coisas que passaram rapidinho e que não voltaram mais. Para elementos que se dissociaram na neblina e estão em constante transformação. Hoje eu prefiro romper laços, distanciar-me, não me envolver. Perdi e sei que não volta mais. Aliás, nunca tive. Sempre fiquei entre o meio fio, na corda bamba, à beira de um rasgo na face; à beira de uma queda livre, sem cama elástica, sem cama, com nada. A face é pó, o pulmão é peste.

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