sexta-feira, 24 de maio de 2013

sábado, 19 de maio de 2012

Num dois por dois, branco, com pilulas à esquerda e o canivete de meu avô, à direita. Um gemido interno; um pulsar ofegante: fim.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

no lo se

No sonho ela pedia um copo de água. Seus lábios estavam ressecados, sua face era pálida e não lhe restavam forças para um abraço apertado, para um adeus; não haviam forças para um aperto de mão. Seus cabelos eram delgados de tão finos. Ela queria água e um pouco de ar para respirar. Dar as últimas tragadas de oxigênio não é nada fácil, absolutamente. O mais difícil é tomar consciência de que os últimos golpes de ar lhe chegaram. “Amor, estou partindo”. Foram essas as palavras. Tão claras, foram essas as palavras que me fizeram acordar. Corri para o telefone. Eu queria apenas um sussurro dela dizendo um oi. “Alô, alô, tem alguém ai?”. Após essas palavras, desliguem o telefone - as lágrimas foram instantâneas. Os nossos laços estavam quebrados há algum tempo e as minhas forças para reatá-los eram tão pequenas quanto as forças dela, no sonho. Vieram-me a mente o dia em que perdi os afagos, os mimos, os carinhos vindos dela. As palavra ditas a mim, naquele dia, estavam pairando na minha mente. Se bem que pairar é muito leve; aquelas palavras foram mais duras, foram mais dolorosas. O que acontece na hora da lembrança é um nó no estômago e vômito. Nada para mais. Tudo volta e se vai com a descarga do sanitário- que, aliás, está imundo. O problema é a efemeridade dessas dores abdominais. Minha mente anda dando muito valor a coisas efêmeras. Não, não, isso não faz bem. Tanto que já me afastei dela por isso. Dei muito valor para coisas que passaram rapidinho e que não voltaram mais. Para elementos que se dissociaram na neblina e estão em constante transformação. Hoje eu prefiro romper laços, distanciar-me, não me envolver. Perdi e sei que não volta mais. Aliás, nunca tive. Sempre fiquei entre o meio fio, na corda bamba, à beira de um rasgo na face; à beira de uma queda livre, sem cama elástica, sem cama, com nada. A face é pó, o pulmão é peste.

sábado, 14 de janeiro de 2012

pó, tudo vira.

"It’s hard to dance with a devil on your back".

Vovó morria e eu relutava. Nada mais fazia sentido: um sonho morreu; uma vida se foi. O sonho passou, sutilmente pelas minhas mãos e, o grande problema: não o senti fugindo do meu alcance. Voou. Foi-se. Nada mais poderá ser feito. Não era consistente, o vento levou. Se houvessem raízes... Se houvessem. A previsão de volta é indeterminada. Bi, tri, quatrilhões de anos luz: lá estará mais uma alma esburacada. You are the hole in my head. “Seja buraco não, senhô”. Flua na mente, na alma, no corpo, nas veias, no sangue coagulado. Não fluiu, morreu. Se houvessem folhas, teriam caído. Faltou água; faltou regularidade. Uma dica: regue, regue, regue, caso contrário, não vive; morre facim facim. Esquecer é difícil. Se fosse sentimento, não seria nada. Não tenho mais dessas coisas [mentira, tá tudo fudido, amassado e, quando explodir... Não desejarei mais ser]. Mas vovó continua sem perspectiva. Acho que ela nem sabe mais o significado disso. Ela só quer ser abraçada, sabe? E quando eu a abraço sinto os seus ossos, pedindo por descanso. Logo sinto o desgaste. Tudo ali é vivido; tudo ali tem um sentido. Supomos as suas rugas: madrugadas, iluminadas a vela, sobre uma máquina. Essa máquina era mágica: levava a comida para a mesa; levava os filhos para a escola; a dor para as costas. Magia, minha gente. Magia tem dessas coisas. Felicidade até um ponto, depois tem os impostos. Uns pagam menos, outros mais. Só que há casos em que essa relação ultrapassa a monetaridade: o valor é corpo sofrido, é a mente desgastada. Vovó está rala, trinta e poucos quilos, sessenta anos de cigarettes, cinqüenta e poucos de um casamento fudido e setenta e três de lucidez. Nesses momentos eu peço que a sua mente durma e o seu corpo descanse. Nada mais é válido. Deus deve estar no céu, olhando ela sofrer; ela e mais meio mundo. Deus MA-RA-VI-LHO-SO. Cadê? non ecsiste.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

o pulmão-peste: pútrido, mal lavado

Papai me ensinou a ser um bom menino
a usar calças largas e sapatos de couro
Mas eu não quero:
quero ser livre, quero ser o crime.

Mamãe me disse para ir à igreja
Disse-me para usar gravatas
Mas eu não quero:
quero ser ilusão, refração.

Meu rock n’ roll é efêmero
É palavra suja, mal criada, estúpida

Papai quer meninas, eu, meninos
Mamãe quer bondade, eu, liberdade

Me tênis sujo é desespero aos pobres de espírito
Minha calça rasgada é soco no estômago,
é grito de guerra:
sem fala
sem gesto
é imagem.


pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

vem vem vem

“Gosto, não gosto; gosto, não gosto; gosto, não gosto”. A percepção estava quebrada. Pulsar era o malefício. A memória se foi; a marca da moeda é mais profunda do que o hematoma na cabeça. Machuquei a alma. Esqueci de quem fui ou o que fiz ou, ainda mais fundo, o que deixei lá atrás. O meu pretérito não é nada perfeito, mas ninguém tinha o direito de açoitá-lo; de golpear à navalha e não me entregar as sobras. Eu quero as réstias das minhas memórias, mesmo que seja para a decepção, porque o tempo de fingir já passou.

Bárbara